quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

O DESENCANTAMENTO DO MUNDO EM WEBER: REFLEXÕES PARA O MUNDO CONTEMPORÂNEO

Introdução e contextualização

As teorias contemporâneas da formação do caráter humano permeiam por todas as ciências, ficando para as humanas, a reflexão de como esse processo é constituído, para a elaboração de metodologias que colaborem para o desenvolvimento científico-racional da educação. A sociologia colabora significativamente para esse conhecimento ao passo que entende o homem enquanto parte de um sistema, ou seja, o vê conformado pelas influências diretas e indiretas do meio o que o rodeia.

Essas mesmas contribuições tem bases em reflexões já centenárias, que ajudaram a entender o período em que foram elaboradas, refletidas e publicadas. Karl Marx, filósofo alemão, possui a obra de maior influência no pensamento atual desde a década de 60 do século XX, onde os limites do capitalismo começaram a aparecer. Suas reflexões sobre as consequências do capitalismo, e a sua formulação do materialismo histórico, contrapunham a sua influência Hegeliana, a qual primava por valores ideais e formulações utópicas.

O materialismo histórico compreende a história real dos homens em sociedade a partir das condições materiais nas quais elas vivem. Segundo Marx, os homens não podem ser pensados de forma abstrata como na filosofia de Hegel, nem de forma isolada como na filosofia de Proudhon, Shopenhauer etc. Para ele, a essência humana é o conjunto de relações sociais, ou seja, pensar o homem deslocado do seu contexto seria um erro, pois não pode ser formado sem ele. Sendo assim, a forma como os indivíduos se comportam, agem, sentem, pensam se vinculam com a forma como se dão as relações sociais, e estas, segundo ele, são determinados pela forma de produção da vida material, ou seja, pela maneira como os homens trabalham e produzem os meios necessários para a sustentação material das sociedades.

É justamente esse materialismo histórico que Weber intentou verificar. Para ele, Marx e Nietzsche foram os mais importantes pensadores daquele contexto, onde o segundo influenciou-o com suas reflexões sobre a realidade social, política e econômica, mostrando que somente através das vontades de poder expressas nas lutas entre valores antagônicos seria possível compreendê-las.

A Alemanha, por passar tardiamente pelo processo de industrialização em relação à Inglaterra e França, era desprovida de uma sociedade burguesa vigorosa, forte, e os valores tradicionais ainda eram muito latentes. Sendo assim, uma geração de pensadores que refletiam sobre essas novas condições de vida teve na Alemanha seu berço.

Em seguida abordaremos sobre os principais conceitos do pensador Max Weber e sobre suas relações com a educação contemporânea.

Conceitos importantes do pensamento de weber

Para Weber, a sociologia é a ciência que pretende entender, interpretando-a, a ação social, para, dessa maneira, explicá-la causalmente em seu desenvolvimento e efeitos, observando suas regularidades que se expressam na forma de usos, costumes e situações de interesse. Nesse contexto, a ação social é uma conduta humana (ato, omissão, permissão etc.) dotada de significado subjetivo, dado por seu executor, o qual orienta seu próprio comportamento tanto em vista a ação – passada, presente ou futura – de outro ou de outros que, por sua vez, podem ser individualizados e conhecidos, ou uma pluralidade de indivíduos indeterminados e completamente desconhecidos.

A ação social envolve as referências, influências e exemplos. Ela é determinada pela conduta, a qual está ligada ao caráter social que visa captar e interpretar a conexão de sentido em que se inclui uma ação, ou seja, seu valor e suas atribuições específicas ligadas ao sentido. As condutas racionalizadas acontecem mais fluentemente, quando a submissão do sujeito aos costumes e afetos for menor e quanto mais ele se oriente por um planejamento adequado á situação:

Ação Previsível = Ação Racional


Sendo assim, Weber destaca os tipos puros ou ideais, elaborados a partir da concepção racional da ação, mesmo levando-se em consideração que estes estão sujeitas a ocorrência de atitudes irracionais, equívocos, obstáculos, emoções, incoerências etc. Estes, ele dividiu em 4:

1º racional com relação aos fins – para se atingir um determinado objetivo previamente definido, lança-se mão dos meios necessários ou adequados, ambos aliados e cambiados tão claramente quanto possível de seu próprio ponto de vista. Ex.: conduta científica, ação econômica.

2º racional com relação aos valores - quando o sujeito age segundo suas próprias convicções levando em conta somente sua fidelidade a certos valores; ou na medida que se crê na legitimidade intrínseca de um comportamento, válidos por si mesmo:
• Senso de dignidade;
• Crenças religiosas;
• Crenças morais;
• Crenças políticas;
• Crenças estéticas
• Valores como justiça, honestidade, honra, fidelidade, beleza etc.
Sendo assim, “o que dá sentido à ação é sua racionalidade quanto aos valores que a guiam.”

3º Ação afetiva - distingue-se da racional, orientada por valores, pelo fato de que, nesta, o sujeito elabora conscientemente os pontos de direção últimos da atividade e se orienta segundo estes de maneira consequente, portanto age racionalmente apesar de guiado pelas emoções, impressões etc.

4º Ação tradicional - a conduta é guiada por hábitos e costumes arraigados que levam a que se aja em função deles, ou seja, ”como sempre se fez”, reagindo a estímulos habituais. Ex.: batismo dos filhos.

Esses tipos puros de ação social são divididos em ação homogênea e ação proveniente de uma imitação sob influência da/ou condicionada pela massa. A ação homogênea é aquela executada por muitas pessoas simultaneamente como proteger-se contra uma calamidade natural, e a ação proveniente de uma imitação, é determinada na medida em que o sujeito não orientou causalmente sua conduta pelos outros, ou seja, não se pode identificar nela uma relação de sentido representado.

E, por fim, outro conceito importante é o de relação social que é uma conduta plural, reciprocamente orientada, dotada de conteúdos significativos, que descansam na probabilidade de que se agirá socialmente de um certo modo (causa e efeito). Ex.: hostilidade, amizade, trocas comerciais, concorrência econômica, relações eróticas e politicas etc. Casos: vendedores que recebem cheques, políticos que oferecem suas propostas, etc., essas relações não garantem reciprocidade apesar de haver probabilidades na conduta.

Apesar de haver diversas outras reflexões de Weber, estas são as mais significativas do ponto de vista da leitura social, ou seja, estes conceitos são instrumentos para se diagnosticar uma determinada realidade social, levantando suas principais características, fluxos, processos sociais, e no caso da educação, pode ser um instrumento para o planejamento, onde que, com um perfil social, pode se determinar as estratégias de ação no ambiente social.

O descontentamento do mundo em Weber: uma reflexão crítica sobre a educação contemporânea

Com a revolução industrial e com as reflexões baseadas nos precedentes da filosofia iluminista e na ideia do progresso linear histórico-cronológico, existiu na Alemanha um Weber pessimista, o qual apontava o avanço da racionalidade científica como sendo a decadência geral da cultura clássica, ou seja, a humanidade partiu de um mundo habitado pelo sagrado, pelo mágico e chegou a um mundo racionalizado, material, manipulado pela técnica e pela ciência (QUINTANEITO et al, 1996: 140 - 141). Podemos verificar frequentemente nas reflexões dos pensadores desse período, temas como “a vulgarização da arte, a deformação democrática e ascensão do homem medíocre” (BRANDÃO e OLIVEIRA, 2010: 41), onde as deformações culturais foram mais bem exploradas pelos sociólogos e filósofos da escola de Frankfurt, principalmente nos debates de Walter Benjamin e Theodor Adorno, onde o primeiro diz ter havido uma dissolução entre as culturas popular e erudita em cultura das massas, devido ao fato de o fetiche da indústria e do capitalismo ter se tornado a cultura.

Essa dissolução aproximou as diversas camadas da sociedade, dissolvendo suas raízes em detrimento de posturas contraditórias, anacrônicas e aleatórias. É impossível não falar da alienação de Marx nesse momento, que foi por ele denunciada nos meados do século XIX, como sendo a consequência da dominação do capitalismo e do racionalismo. Essa alienação ficou mais evidente no século XX, onde o sujeito ficou descentralizado, sem referências históricas e não se permite agir a partir de posturas prévias, mas simplesmente age intuitivamente. O fracasso do projeto iluminista deixou marcas talvez irreversíveis na sociedade contemporânea. De fato, essas alterações atingiram a educação, então, sendo assim, perguntamos, qual o papel da educação frente a essa crise do sujeito contemporâneo? O desencantamento do mundo Weberiano parece estar mais latente, evidente nos nossos dias, evidenciado pelas incertezas, pela sensação de descentramento e de fragmentação da história da humanidade, como aponta Stuart Hall (2006).

Referências

BRANDÃO, C. R. e OLIVEIRA. M. F. As correntes sociológicas, in: coleção tramas e urdumes 3. Org. Leda Gumarães. Goiânia: FUNAPE, 2010
HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. Rio de Janeiro: DP&A editora, 2006.
QUINTANEITO et al. Um toque de clássicos, Durkheim, Marx e Weber. Belo Horizonte: Editoda UFMG, 1996.

P.H.M.P

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